A padaria em roulotte estacionada na esquina da rua Afonso Lopes Vieira com a avenida da Igreja é um ponto de referência em Alvalade há quase 50 anos. Foi Lurdes Nascimento quem a estabeleceu em 1979, após uma década a vender pão pelas ruas do bairro, primeiro transportada num triciclo e depois num pequeno automóvel. A regularização do negócio, finalmente conseguida com ajuda de um cliente, permitiu estacionar a padaria e pôr fim aos constantes conflitos com a fiscalização.
O pão que sai diariamente da roulotte segue para vários destinos. Crianças dos infantários da zona, clientes dos cafés e restaurantes vizinhos, incluindo o Jacaré Paguá, e até à paróquia da Igreja do Campo Grande, onde é distribuído aos mais necessitados. O tabuleiro oferece pão de Trancoso, trazido do interior de 15 em 15 dias, juntamente com pão de Mafra, pão Alentejano e bolos. Os habituais chegam pela manhã, alguns cumprimentados como velhos amigos.
Lurdes, nascida em Trancoso em 1946, viu o seu sacrifício reconhecido quando conseguiu comprar casa no prédio vizinho à padaria. Agora reformada, aparece ainda para apoiar a filha Fernanda nos momentos em que esta sai para as entregas ao domicílio, um serviço que mantém idosos isolados ligados ao essencial da vida quotidiana.
Mas o cenário é de declínio. Os supermercados multiplicaram-se no bairro e oferecem o que antes justificava viagens separadas. Fernanda, agora com 60 anos, vê a idade da aposentação aproximar-se. Os filhos perseguiram caminhos diferentes e não têm interesse em herdar um negócio de margens apertadas. A renda mensal à Junta de Freguesia consome recursos que já eram escassos. A padaria enfrenta o mesmo risco que outros comércios históricos de Alvalade: desaparecer quando a geração que a sustentava também se afastar.
