Fundada em 1902, a Retrosaria Borges continua a abrir todas as manhãs na Rua José Falcão, em Arroios. Lá dentro, prateleiras altas de madeira escura guardam novelos de lã, rolos de tecido, linhas coloridas, botões de vários tamanhos, fechos, agulhas e fitas. Nas vitrinas há babetes e peças feitas à mão. A loja é hoje gerida por Irene Oliveira, de 80 anos, e pela filha Beta, de 48.
Irene cresceu no bairro a ajudar os padrinhos, antigos proprietários da casa. Foi ali que aprendeu a conviver com linhas e tecidos — o primeiro brinquedo de que se lembra foi um ioiô improvisado com linha de costura. Quando os padrinhos morreram, decidiu manter a loja aberta. Mãe e filha fazem hoje arranjos de costura, bainhas e substituição de fechos, e vendem materiais a quem gosta de costurar em casa. A maioria dos clientes são pessoas de sempre, muitas delas idosas.
A sobrevivência não tem sido fácil. Sem movimento suficiente, a loja passou a fechar às 17 horas, quando antes ficava aberta até às 19 horas, e continua sem letreiro à porta. O caso não é único: na Rua da Conceição, na Baixa, a rua que os lisboetas associam às retrosarias, restam quatro casas quando há poucos anos eram 15, apesar do programa municipal Lojas com História, que trava a subida das rendas e prevê isenções fiscais.
Numa freguesia que mudou de rosto nos últimos anos — Arroios integra o quarteirão mais populoso do país —, a Retrosaria Borges rema em contracorrente. Irene e Beta têm uma missão para além da costura: manter vivo um pedaço da história de Lisboa e do bairro. Notícia adaptada a partir de reportagem publicada via Mensagem de Lisboa.
