A instabilidade dos preços do trigo nos mercados internacionais, combinada com a instabilidade geopolítica no Mar Negro, períodos de seca na Europa e o aumento dos custos de produção, coloca novamente a fileira da panificação portuguesa sob pressão. A Associação do Comércio e da Indústria de Panificação, Pastelaria e Similares admite que aumentos no preço do pão são esperados, numa altura em que as empresas enfrentam custos mais elevados não apenas nas matérias-primas, mas também na energia, nos transportes e na mão de obra.
Até agora, os operadores do setor têm absorvido parte dos aumentos. Contudo, a persistência da pressão sobre as matérias-primas limita essa capacidade e poderá levar à transferência de uma parcela maior dos custos para o consumidor. Portugal agrava este cenário pela sua dependência de importações: o país produz apenas cerca de 5% dos cereais de que necessita, recorrendo ao exterior para assegurar a maioria do abastecimento.
Em Trás-os-Montes, investigadores e agricultores defendem desde há anos o reforço da produção cerealífera nacional como resposta a esta vulnerabilidade. A Escola Superior Agrária de Bragança apresentou em dezembro de 2025 o projeto CERTRA, dedicado à recuperação e valorização de cereais tradicionais. A iniciativa, coordenada pelo investigador Luís Dias, envolve investigadores, produtores, moageiros e comerciantes e visa transformar variedades que perderam expressão agrícola em produtos com maior valor acrescentado e potencial comercial.
O projeto abrange variedades como o trigo barbela e a espelta, além de variedades tradicionais de milho e centeio. Uma das vertentes passa pela certificação destes cereais e pela organização de lotes homogéneos de sementes, criando melhores condições para a sua utilização pelos produtores locais. O objectivo é recuperar culturas que foram abandonadas ou cuja área de cultivo diminuiu drasticamente, criando novas oportunidades económicas associadas a produtos diferenciados e ligados ao território.
